Leite em pó sem lactose e fórmula: não é para APLV

Mamadeira sobre a mesa, com um adulto ao fundo
Foto: Burst, CC0 (domínio público), via StockSnap

Leite em pó sem lactose e fórmula infantil sem lactose não são para quem tem APLV. Os dois são leite de vaca com a proteína inteira; só o açúcar (a lactose) foi retirado ou quebrado. As fórmulas para APLV são outra categoria, com a proteína quebrada em pedacinhos ou sem proteína do leite, e quem indica é o médico.

Essa confusão acontece muito, até no balcão da farmácia. A lata parece igual, a marca às vezes é a mesma, e "sem lactose" soa como "sem leite". Não é.

Leite em pó sem lactose: o que é

O leite em pó sem lactose é leite de vaca desidratado que recebeu a enzima lactase. A enzima quebra o açúcar do leite em açúcares menores, que quem tem intolerância consegue digerir.

O que não muda:

  • A caseína continua lá.
  • As proteínas do soro do leite continuam lá.

São justamente essas proteínas que causam a reação na APLV. Uma revisão de 2024 sobre intolerância à lactose e APLV no bebê resume: na intolerância, usa-se fórmula com pouca ou nenhuma lactose; na APLV, fórmula extensamente hidrolisada ou de aminoácidos. Por isso, leite em pó sem lactose, integral ou desnatado, de qualquer marca, é leite para quem tem alergia. Explicamos isso com calma em sem lactose não é sem leite.

Outro ponto: leite em pó comum, com ou sem lactose, não é fórmula infantil. O que o bebê toma em cada idade é definido pelo pediatra.

Fórmula sem lactose: para quem ela foi feita

A fórmula infantil "sem lactose" é uma fórmula comum, à base de proteína de leite de vaca, em que a lactose foi trocada por outro açúcar. Várias marcas conhecidas têm uma versão assim. É o que aparece quando alguém procura "Aptamil sem lactose" ou "NAN sem lactose", por exemplo.

Ela existe para casos em que o pediatra quer tirar a lactose, como em algumas situações de intolerância. Mas a proteína do leite de vaca está inteira. Para um bebê com APLV, é como tomar a fórmula comum.

Por que confunde tanto

  • A mesma marca tem várias linhas. Muitas vezes, existe a linha comum, a sem lactose, a de soja e a específica para alergia, com latas parecidas e nomes parecidos. Uma palavra a mais ou a menos no nome muda tudo.
  • Algumas fórmulas para APLV têm lactose. Parece contraditório, mas faz sentido: o que importa na APLV é a proteína, não o açúcar. A Portaria SCTIE/MS nº 67/2018 incorporou ao SUS fórmulas extensamente hidrolisadas com ou sem lactose.
  • "Conforto", "HA" e "parcialmente hidrolisada" não são fórmulas para APLV. Nelas, a proteína é pouco quebrada. O Consenso Brasileiro sobre Alergia Alimentar, da SBP e da ASBAI indica para o tratamento as extensamente hidrolisadas e as de aminoácidos. E, para prevenir alergia, uma revisão no BMJ (2016) com mais de 19 mil bebês não encontrou evidência consistente de que fórmulas parcial ou extensamente hidrolisadas reduzam o risco.

Se a diferença entre alergia e intolerância ainda está confusa, leia APLV ou intolerância à lactose.

Fórmula sem lactose para APLV: o que serve então

O protocolo da APLV da Conitec, do Ministério da Saúde, e o Consenso da SBP e da ASBAI descrevem as categorias de fórmula usadas na APLV. Não são marcas, são tipos:

Fórmula extensamente hidrolisada

A proteína do leite vem "picada" em pedaços tão pequenos que o sistema de defesa da maioria dos bebês não reconhece mais. Segundo o documento da Conitec, ela é tolerada por cerca de 90% dos bebês com APLV abaixo de 6 meses e 95% dos maiores, e costuma ser a primeira escolha em muitos casos. A diretriz da Organização Mundial de Alergia de 2024 vai na mesma linha: para o bebê com APLV que não mama no peito, sugere como primeira opção a extensamente hidrolisada (ou a hidrolisada de arroz), deixando a de aminoácidos como segunda e a de soja como terceira.

Fórmula de aminoácidos

Aqui não há proteína do leite: ela vem totalmente desmontada, em aminoácidos. O mesmo documento da Conitec a coloca como primeira opção nos casos mais graves, como risco de anafilaxia, ou quando a extensamente hidrolisada não funcionou.

Fórmula de soja

Não tem proteína do leite, mas tem proteína de soja, e algumas crianças com APLV também reagem a ela. Essa reação é menos comum do que se dizia: uma meta-análise de 2014 estimou alergia à soja em 2,7% das crianças alérgicas. Segundo a Conitec, pode ser opção em bebês a partir de 6 meses com a forma IgE mediada, a critério do médico.

Quem escolhe é o médico

Qual categoria, qual marca, quanto e por quanto tempo: tudo isso é decisão do pediatra, do alergista ou do gastroenterologista, junto com o nutricionista. Depende do tipo de APLV, da idade, dos sintomas e da resposta do bebê. A mesma diretriz da Organização Mundial de Alergia diz que as comparações entre fórmulas têm certeza muito baixa e que custo e disponibilidade entram na decisão: não há uma fórmula campeã para todos. Por isso a gente não indica marca aqui.

E não vale trocar por conta própria, nem por uma fórmula "parecida". Se a fórmula atual parece não estar funcionando, anote os sintomas com data, horário e foto e leve à consulta.

Infográfico dos tipos de fórmula e a APLV: sem lactose não é para APLV; extensamente hidrolisada, de aminoácidos e de soja, sempre indicadas pelo médico
Infográfico: APLV Sem Segredo

E o leite materno?

O leite materno continua sendo o melhor alimento para o bebê, inclusive com APLV. O documento da Conitec diz que a APLV em bebê que mama só no peito é rara e não é motivo para interromper a amamentação. A diretriz europeia de 2024 (ESPGHAN) concorda: existe, mas é incomum, e muitas vezes é diagnosticada em excesso. Quando o médico pede, a mãe faz dieta sem leite, com apoio de nutricionista. Falamos disso em dieta da mãe que amamenta.

Como conseguir a fórmula para APLV

As fórmulas para APLV são caras. Desde a Portaria SCTIE/MS nº 67/2018, as fórmulas de soja, extensamente hidrolisada e de aminoácidos fazem parte do SUS para crianças de 0 a 24 meses com APLV. Na prática, cada estado e município organiza a entrega do seu jeito, com laudo médico e outros documentos.

Explicamos o caminho, inclusive pelo plano de saúde, em fórmula para APLV pelo SUS.

Leite em pó sem lactose para adultos e crianças maiores

Para adultos e crianças maiores com APLV, vale a mesma regra: leite em pó sem lactose, desnatado ou integral, é leite. Composto lácteo e "mistura láctea" também têm leite.

Quem tem APLV procura bebidas sem leite, como as de soja, aveia, arroz, coco ou castanhas, sempre conferindo o rótulo. Para crianças pequenas, bebida vegetal não substitui fórmula nem leite materno, e o que entra no lugar do leite é decidido com o pediatra e o nutricionista. Segundo a diretriz de nutrição da Organização Mundial de Alergia (2024), para crianças maiores que comem bem e para adultos, uma bebida vegetal adequada pode substituir a fórmula, com avaliação nutricional. O cálcio do leite precisa vir de outros lugares, e falamos disso em cálcio sem leite.

Para quem tem intolerância à lactose, o leite em pó sem lactose pode ser uma boa opção. Ele foi feito para isso.

Sinais de alerta: ligue 192

Falta de ar, chiado, inchaço nos lábios, na língua ou no rosto, vômitos repetidos, moleza ou palidez depois de mamar ou comer são sinais de reação grave. Ligue para o 192 (SAMU) ou vá direto ao pronto-socorro.

Fontes científicas

  • Darma A et al. Lactose Intolerance versus Cow's Milk Allergy in Infants: A Clinical Dilemma. Nutrients, 2024. PubMed
  • Bognanni A et al. DRACMA guideline update - XII - Recommendations on milk formula supplements with and without probiotics for infants and toddlers with CMA. World Allergy Organ J, 2024. PubMed
  • Boyle RJ et al. Hydrolysed formula and risk of allergic or autoimmune disease: systematic review and meta-analysis. BMJ, 2016. PubMed
  • Katz Y et al. A comprehensive review of sensitization and allergy to soy-based products. Clin Rev Allergy Immunol, 2014. PubMed
  • Vandenplas Y et al. An ESPGHAN Position Paper on the Diagnosis, Management, and Prevention of Cow's Milk Allergy. J Pediatr Gastroenterol Nutr, 2024. PubMed
  • Venter C et al. DRACMA guidelines update - XVI - Nutritional management of cow's milk allergy. World Allergy Organ J, 2024. PubMed

Perguntas frequentes

Fórmula sem lactose serve para bebê com APLV?

Não. A fórmula infantil sem lactose é feita com proteína do leite de vaca inteira, e é essa proteína que causa a alergia. As fórmulas para APLV são as extensamente hidrolisadas, as de aminoácidos e, em alguns casos, as de soja, indicadas pelo médico.

Leite em pó sem lactose tem proteína do leite?

Tem. É leite de vaca em pó com a lactose quebrada pela enzima lactase. A caseína e as proteínas do soro continuam lá. Por isso ele não serve para quem tem APLV, mas pode servir para quem tem intolerância à lactose.

Qual a diferença entre fórmula sem lactose e fórmula para APLV?

Na fórmula sem lactose, sai o açúcar do leite e a proteína fica inteira. Na fórmula para APLV, a proteína do leite vem extensamente quebrada ou é substituída por aminoácidos. Algumas fórmulas para APLV até têm lactose, porque o problema da alergia é a proteína.

Fórmula HA ou parcialmente hidrolisada serve para APLV?

Não para o tratamento. Nelas, a proteína do leite é pouco quebrada. O Consenso da SBP e da ASBAI indica as extensamente hidrolisadas e as de aminoácidos para bebês com APLV. A escolha é sempre do médico.

Como saber se a fórmula é para APLV?

Leia o nome completo e a descrição na lata, procurando "extensamente hidrolisada" ou "de aminoácidos", e confirme com quem receitou. Na dúvida, leve a lata à consulta antes de oferecer ao bebê.

Lata parecida, nome parecido, preço alto: a fórmula assusta no começo. Na comunidade APLV Sem Segredo famílias de todo o Brasil contam como conseguiram a fórmula no seu estado e trocam experiências sobre a adaptação.

Este texto é informação e troca de experiência; não substitui o pediatra, o alergista ou o nutricionista. Em caso de reação grave — falta de ar, inchaço no rosto ou nos lábios, vômitos repetidos, moleza — ligue 192 (SAMU) ou vá ao pronto-socorro.